Na Web: A genealogia dos preconceitos, de Oswaldo Giacoia Junior

Esse gosto pela intervenção polêmica no debate cultural, combinado ao virtuosismo estilístico sedutor, que recorre ao "pathos" poético, à paródia, à sátira, aos aforismos cortantes, fornece a atmosfera própria para a geração de mal-entendidos, pois dá a impressão superficial do entendimento fácil. A irreverência, sobretudo, é uma espécie de marca registrada de Nietzsche; ela se expressa em seu chamamento à transvaloração de todos os valores. Daqui também resulta uma mistura curiosa de atração e repulsa. Campeão do politicamente "incorreto", Nietzsche não hesitava em afrontar as convicções mais graníticas. Especialmente as "idéias modernas" de que mais nos orgulhamos. Esse delito não pode ficar sem castigo.

A crítica de Nietzsche visava a denunciar -muitas vezes por meio do exagero caricatural -uma interpretação tacanha do conceito de igualdade, como se este implicasse nivelamento e uniformização, supressão de distâncias e diferenças. Num dos casos, a ironia se dirige a uma espécie de diluição e perda irreversível do feminino; no outro, à hipocrisia latente na moderna exaltação da dignidade do trabalho, quando este é realizado em condições degradantes de repetição mecânica, impessoalidade e alienação, em que o discurso da igualdade dissimula a exploração brutal, a reificação absoluta do trabalhador. Constata-se, pois, a que ponto alcança a extensão do preconceito. Tanto mais violento, quanto mais duros os golpes que Nietzsche vibrou em nossa entranhada má consciência. Com sua impiedosa crítica da moral, ele pretendia trazer à luz os interesses, os jogos de poder e dominação, os investimentos de desejo, a idiossincrasia e estupidez transfigurados em nossos valores mais sublimes. Assim fazendo, revolvia as mais dolorosas e bem protegidas feridas narcísicas da alma moderna, desmascarando a impostura travestida em ideal. 

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