Arquivo para download: Nas entranhas da máquina capitalista: entre sujeição social e servidão maquínica, por Gustavo Bissoto Gumiero

O sociólogo italiano Maurizio Lazzarato, em sua obra “Signos, Máquinas, Subjetividades” (2014), afirma que o capitalismo pós 1970 é caracterizado pelo seu duplo investimento na atividade subjetiva, a saber, sujeição social e servidão maquínica. Para ele, a produção (pura e simplesmente, ou a produção de riqueza) opera na intersecção desse duplo investimento de poder, que é ao mesmo tempo, heterogêneo, mas complementar. Enquanto a sujeição social é responsável por produzir e distribuir lugares e papéis dos atores sociais, na servidão maquínica, o ser humano é considerado peça de uma grande engrenagem que o extrapola, e constitui com as máquinas tecnológicas, verdadeiros sistemas homens-máquinas, os quais agem sobre os níveis pré-individuais e supraindividuais, desconfigurando o “indivíduo”. Por isso, a relação do ser humano e da máquina acontece, neste regime de servidão maquínica, não mais em termos de uso ou de ação, mas através de comunicação mútua interior, inexistindo a proporcionalidade entre trabalho individual e produção, já que por haver uma relação recíproca de comunicação nesses sistemas, há liberação de potências de produção incomensuráveis se comparadas, por exemplo, com as do emprego e do trabalho humano. O Capital extorque, assim, não apenas uma extensão do tempo de trabalho, mas é responsável por instaurar um processo que explora a diferença entre a sujeição e a servidão, ou seja, a parte não “mensurável”. Por isso, o autor aponta que o capitalismo se define como uma máquina social, uma megamáquina, na qual entre humano e não humano, entre homem e máquina, entre o organismo e a técnica, ao invés de separação, existe comunicação, recorrência e reversibilidade e ao forjar todo um meio ambiente maquínico, o que o Capital coloca em jogo não são somente as seduções da publicidade, nem tampouco a interiorização individual dos objetos e dos valores da sociedade de consumo (sujeição social), mas forja, assim, o agenciamento de elementos prépessoais, pré-verbais, suprapessoais, infrapessoais, infrassociais.

Com o desenvolvimento e a proliferação dos dispositivos tecnológicos, a servidão maquínica ganha força e magnitude, tornando as empresas de tecnologia, como Google e Facebook, ainda mais poderosas em nível mundial. Parte da riqueza dessa categoria de empresas provém de receber informações dos usuários conectados, e quanto mais dados elas recebem, também mais ricas elas podem se tornar. Ao mesmo tempo, com tanta informação disponível, prepara-se o cenário para o pleno desenvolvimento da inteligência artificial, que acreditamos ser um estágio ainda mais avançado do capitalismo.

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