Arquivo para download: As duas fontes da moral e da religião, por Henri Bergson

Consideremos duas linhas divergentes de evolução, e sociedades na extremidade de uma e de outra. O tipo de sociedade que parecerá o mais natural será evidentemente o tipo instintivo: o vínculo que une as abelhas da colmeia entre si assemelha-se muito mais àquele que conserva juntas as células de um organismo, coordenadas e subordinadas umas às outras. Suponhamos por um momento que a natureza tenha pretendido, na extremidade da outra linha, obter sociedades em que fosse deixada certa margem à escolha individual: ela terá feito com que no caso a inteligência obtivesse resultados comparáveis aos do instinto na outra extremidade, no que respeita a sua regularidade; ela terá recorrido ao hábito. Cada um desses hábitos, a que se poderá chamar “morais”, será contingente. Mas seu conjunto, quero dizer, o hábito de contrair esses hábitos, sendo a própria base das sociedades e condicionando sua existência, terá uma força comparável à do instinto, tanto em intensidade como em regularidade. Isso precisamente é o que chamamos “o todo da obrigação”. De resto, tratar-se-á apenas de sociedades humanas tais quais são ao sair das mãos da natureza.


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